JUIZ CAGÃO:

Juiz tira um foto no banheiro pra mostrar que também é genteClique e leia

1 de ago de 2014

DIÁRIO DE UMA DOUTORA – COMEÇANDO PELO COMEÇO

Eu sou a Carol do texto sobre a audiência com o travesti, não sei se vocês se lembram. Enfim, fiquei honrada com o convite da Mariana para assumir a coluna (Valeu, Mari! Farei de tudo para fazer valer esse convite). E espero, de todo coração, que vocês gostem da coluna e continuem lendo, porque agora eu que irei escrever sobre o cotidiano da minha vida de doutora (acho bobagem isso de “doutora”... um dia eu explico).

E eu estava pensando aqui sobre o que escrever e eu resolvi “começar pelo começo”. Sim, vou contar para vocês sobre quando comecei a advogar. E, me lembrando dessa época, achei interessante contar para vocês sobre a pior experiência profissional que eu tive.

Tinha acabado de ser aprovada no exame da ordem, fiz a prova de segunda fase na área de Direito Civil e eu estava me achando a própria “Carolina Beviláqua”. Resolvi procurar oportunidades e, enfim, começar a trabalhar. E onde a “Carolina Beviláqua” foi parar? Bem... cheguei para a entrevista no escritório: um escritório todo trabalhado no mármore e tudo dourado. Tudo! O advogado tinha compulsão por dourado. O balcão tinha uma tinta com efeito dourado, as paredes tinham objetos dourados, entrei na sala dele e vi 9479404 coisas douradas e ele também, cheio de ouros por todos os lados.

Começamos a entrevista, e ele já foi dizendo a proposta: eu teria que cuidar de todos os processos dele (destas causas eu não receberia nada), e, no tocante aos processos que eu levaria para o escritório, caberia a mim a incrível porcentagem de 20% e, a cada ano, teria direito a mais 5% do total dos honorários, até chegar ao limite de 50%! Pô, oferta tentadora, hein? Pra chegar a receber metade dos honorários dos casos que eu conseguisse, eu teria que esperar 6 anos! Sim, Brasil, era esse o esquema. Mas ele disse que eu teria todo o aparato necessário para advogar, toda a estrutura possível. Eu não estava conseguindo nada melhor e tinha medo de advogar sozinha, então topei (mano, onde eu tava com a cabeça?).

Por 15 dias (sim, 15 dias) eu fiquei colocando as pastas de clientes em ordem. Tipo... TODAS as pastas de TODOS os clientes (era pasta pra caramba). Trabalho super intelectual e desafiador, não é mesmo? Furar papel, etiquetar, tirar pó, organizar... poxa, era tudo o que eu estava querendo após estudar 6 meses loucamente para passar no exame.

Após esse período, comecei a trabalhar como “advogada” efetivamente. Um dia ele pediu que eu fizesse uns contratos de locação e, na hora de prepara-los, percebi que os bens apontados pelos fiadores estavam todos hipotecados e solicitei novas garantias, devolvendo a documentação na imobiliária. Após uma hora, ele chegou me cobrando os benditos contratos, eu expliquei a situação e ele, sem entender nada (ele não entendeu mesmo) ordenou (de uma forma muito mal educada) que eu fosse buscar de novo a documentação e fazer os contratos pra aquele dia. Eram mais de 17h e estava chovendo. Tive que sair na chuva pra pegar os documentos. Puts... naquela hora me deu uma vontade de chorar, me senti tão humilhada. Pensei: “foi pra isso que eu estudei 5 anos?”. Já fazia 1 mês e meio e o que eu ganhei? NADA! Eu já estava me sentindo como aqueles bolivianos que trabalham costurando, no centro de São Paulo.

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Ah, acabei de lembrar de um dia que ele me disse uma bobagem tão grande. Eu sempre fui uma pessoa mais caseira. Ele disse que isso tinha que mudar, que eu teria que sair sempre... pra quê? Pra conseguir clientes! Tipo... estou na frente de uma balada e vejo uma batida de carros. O que eu deveria fazer? Sair correndo e oferecer o meu cartão e meus serviços aos envolvidos! Vê se pode? Eu iria virar um urubu, procurando a desgraça alheia pra ganhar dinheiro. Faltou só ele me mandar fazer plantão no velório municipal pra pegar os inventários.

Fora as reuniões ridículas que eu era obrigada a participar. Sempre com agenda e caneta (dourada, que ele deu) na mão. Um dia eu esqueci a desgraça da agenda e da caneta (DOURADA) e levei uma bronca. Ohhhhh... todos teriam que anotar tudo o que ele dizia, porque eram coisas importantíssimas (super!) e todas as pessoas são umas burras, que não lembrariam de nada (inclusive eu). Um dia ele passou um vídeo motivacional, daqueles que a gente recebe por e-mail e acaba nem vendo, sabe? Era um vídeo que falava sobre ser um guerreiro e atingir metas (Oh, Pai!).

Enfim... eu me cansei e vi que aquilo não era pra mim. Com um mínimo de educação todo mundo merece ser tratado, né? Ainda mais se você está se desdobrando e sem ganhar nada em troca. A partir daí, passei a advogar sozinha e foi a melhor decisão que eu tomei na vida. E fica a dica, amiguinhos: não aceitem humilhação de ninguém. Por mais coisas douradas e botox na cara que essa pessoa tenha, ela não tem o direito de te tratar mal, ok?

Assinatura Carol

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