JUIZ CAGÃO:

Juiz tira um foto no banheiro pra mostrar que também é genteClique e leia

19 de mar de 2015

DIÁRIO DE UM CONCURSEIRO – SERÁ QUE EU SOU NORMAL?

Estava eu, no sábado, me embelezando para a Feijoada da Serra, e pensando no tema deste post, quando meu mano me convidou para jantar. Durante o jantar, ele me contou que quase todos os amigos tornaram-se empresários (assim como ele, meu orgulho). Na minha cabeça, eu pensava “Deus me livre ser empresária”. Lá pelas tantas, entres conversas e risadas, pedi sugestões, e pra minha surpresa, ele sugeriu rindo, que eu contasse a minha história e como virei concurseira. E então, percebi que ele achava graça na minha trajetória de vida. E que não achava “normal” o caminho que eu havia trilhado pra chegar até aqui, e pra continuar buscando meus objetivos. Fiquei encucada, e comecei a me questionar: será que eu sou normal?

De fato, ele é o irmão mais novo, mas sempre agiu como o mais velho. Sempre cuidou de mim. Começou a trabalhar aos 15 anos. Aos 18 anos tirou a carteira e comprou o primeiro carro. Agora, aos 22, tornou-se empresário. Ele nunca mencionou a ideia de morar sozinho, fazer faculdade fora, prestar concurso público... Sempre trabalhou, faz faculdade de Administração, namora, e é todo politicamente correto. Quer casar, ter dois filhos, um cachorro, um cobertor, um filme bom no frio de agosto... Tipo o Luan Santana. Eu? Suíte 14, banheira de espuma, champanhe com cereja. Minha mãe nunca entendeu como somos tão diferentes, e quando brigava comigo citava ele de exemplo: “porque você não faz igual o Junior?”.

Não cabe aqui contar toda a minha história, mas farei um resumo: minha mãe queria ter uma filha médica, então lá fui eu estudar pra passar em uma federal de medicina. Fiz tanto cursinho que me chamaram pra ser monitora e ganhar bolsa quase integral no Energia. Fui pra vários cantos, fiz várias provas, não passava em nada. Um dia meu pai resolveu conversar e dar a ideia de eu começar uma faculdade particular na área da saúde, pra ver se eu realmente “me encaixava”. Pelo menos até eu passar na federal de medicina. Além disso, meu pai sempre me incentivou a prestar concursos.

Comecei a cursar Fisioterapia e me senti super “encaixada” no bar que tinha do lado da faculdade. Obvio que nem cogitei fazer a rematrícula. Descobri que a última coisa que eu queria fazer nessa vida era viver dentro de um hospital, postinho ou clínica. Minha mãe me obrigou aconselhou a ir à psicóloga pra tentar descobrir porque eu tinha vindo ao mundo. Eu nem lembro qual foi o resultado dos testes vocacionais que eu fiz.

Resolvi ir embora e cursar a faculdade de Relações Internacionais porque eu sempre gostei de línguas. Na metade do ano fui pra Florianópolis, fiquei uma semana e voltei. Meus pais não concordavam e isso me dava medo. Fiquei meio ano em Lages e resolvi voltar pra Florianópolis. Fiquei um ano em Florianópolis e voltei novamente. Aí fui pra Igreja, encontrei Jesus na minha vida e tomei um rumo.

Na verdade o que aconteceu foi o seguinte: minha mãe cansou das minhas idas e voltas e me obrigou a começar a faculdade de Direito. Ela disse que Direito era a minha cara e era isso que eu tinha que fazer e ponto final. Ela estava certa. Apaixonei-me pela faculdade. Confesso que às vezes penso em jogar tudo para o alto e fazer Gastronomia ou Teatro. Mas aí eu respiro, conto até 10 e bola pra frente.

O foco hoje é direcionado ao concurso do Itamaraty. Hoje eu tenho uma noção melhor de criar raízes e ter uma meta, mas ainda sofro muito com a mesmice de uma rotina. Minha mãe sempre diz que eu preciso “parar de inventar moda”. Eu concordo: ou eu ando na linha, ou nunca vou ser diplomata.

normose

Enfim, fazendo um resumo do resumo do resumo de um resumo, foi assim que eu virei estudante de Direito, Administração e concurseira. Não peguei o caminho mais curto, nem o mais fácil (sou uma legítima pisciana), mas nunca parei. Deixei muitas coisas pela metade, e isso é uma das coisas que mais me incomodam, mas que, se eu não tivesse as deixado, talvez não estivesse aqui. Foi o caminho que eu mesma escolhi. Com um empurrãozinho dos meus pais, claro. (obrigada, amo vocês!). É. Talvez eu não faça parte de um padrão “normal”.

Já mencionei em outro post que sou apaixonada pelo ser humano. Adoro ler e estudar antropologia, sociologia, filosofia e teologia. Fui pesquisar e descobri uma pesquisa sobre uma característica do ser humano que busca sempre ser “normal”: a normose. Roberto Crema define normose como o fenômeno que “ocorre quando o contexto social que nos envolve caracteriza-se por um desequilíbrio crônico e predominante”. Traduzindo: o cara quer ser obsessivamente normal, sendo esse normal, o conjunto de hábitos, tradições ou cultura que o meio em que ele vive considera NORMAL.

Por exemplo: já foi considerado normal casar com alguém da mesma família (aqueles papos de nome da família, hereditariedade, bens e tal). Hoje não. Quando comecei a namorar o filho do primo da minha mãe, só faltou me crucificarem. Rogaram praga até pra cima dos filhos que nunca tivemos. Tudo porque éramos “primos”. Também já foi considerado normal colocar alguém para trabalhar de graça por causa de sua cor. Aliás, tem lugares no mundo, que é normal comer cachorro, comer gato, inseto, lesma, casar com 50 mulheres... Os índios da tribo Massai sobrevivem com apenas 300 calorias por dia. Normal. Pra eles, claro.

Entende? Não é mais uma questão de certo ou errado. E sim do que é considerado normal no meio em que você vive. Se você seguir sempre as regras de normalidade talvez você nunca seja quem você realmente é. E se nós estamos aqui em busca de uma auto descoberta, como vamos entender nossa essência se apenas fizermos o que nos disserem que é normal? É como se não tolerassem que nós pensássemos. É como se tentassem bloquear nossa capacidade de ser. Regras são essenciais, mas nessa conversão de valores que estamos presenciando, inovar é quase questão de sobrevivência. Não se trata de enlouquecer e fazer tudo ao contrário do que os “bons costumes” pregam, mas sim de fazer o que você nasceu pra fazer.

As pessoas me perguntam por que eu não continuei com a loja que a minha mãe teve por 8 anos. Porque eu deveria? Aquele era o sonho dela, não o meu. Se o normal é continuar os negócios da família, então eu não sou normal. Já perdi as contas de quantas pessoas riram ou ficaram surpresas quando eu disse que seria diplomata. Porque na cabeça delas, isso não é normal. Sei lá, mas acho que Einstein, Johnny Cash, Foucault e Nietzsche não deviam ser considerados normais no meio em que viviam...

Sabe, é isso. Se você tem um sonho, vai atrás. Eu não quero viver a vida sem deixar um legado. E você, qual é o legado que quer deixar?

Assinatura Maelem

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