JUIZ CAGÃO:

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2 de jun de 2015

CATADOR DE LATINHAS NA INFÂNCIA, ADVOGADO ESTÁ PRESTES A VIRAR DOUTOR EM DIREITO

Lúcio Antônio Machado Almeida driblou todas as previsões pessimistas que permeiam o destino de um menino pobre, negro e que deixou a escola aos 13 anos. Filho de pai pescador e de mãe doméstica analfabeta, foi criado em uma colônia de pescadores em Rio Grande, no Sul do Estado.

Primogênito de quatro irmãos, vendia latinhas, ferro e vidro para comprar brinquedos. Foi assim dos oito aos 12 anos. Hoje, aos 43 anos, está a 15 dias de defender a tese de doutorado em Direito na Ufrgs.

Aluno aplicado, Lúcio estudou até os 13 anos, quando o pai pediu que deixasse a escola para ajudar na renda de casa. Até os 18 anos, ele trabalhou como empacotador de supermercado.

— Isso me aborrecia muito. Foi uma época terrível, porque via os outros estudando e não podia — lembra.

Em busca de novas oportunidades, Lúcio mudou-se para Porto Alegre aos 18 anos. Fez bicos vendendo sorvete, sendo camelô e fazendo xis em uma lanchonete da Rodoviária. Só teve contato com a escola novamente ao ser servente de pedreiro na reforma de uma, na Vila Cruzeiro.

— Gostava de trabalhar naquela obra porque tinha contato com os livros da biblioteca. Ficava tri feliz! — conta.

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A grande mudança começou a ocorrer quando foi trabalhar como vigia no Hospital da Puc. Com carteira assinada, passou a ganhar mais para, enfim, retornar às salas de aula. Aos 21 anos, concluiu a sétima e a oitava séries pelo ensino supletivo. No ano seguinte, completou o ensino médio, também no supletivo. Em 1994, passou no vestibular de Matemática na Ufrgs. Fez três anos do curso, também chegou a passar em Filosofia, mas não concluiu nenhuma das faculdades.

Enquanto isso, foi assistente administrativo em dois hospitais. Passou em concurso para fiscal de trânsito pela EPTC em 1998 e, em 2001, foi aprovado em um concurso para ser monitor da Fase. Lá, encontrou realidades com a qual se identificava:

— Amava trabalhar na Fase com os adolescentes, porque eu me via neles. Muitos não tiveram a mesma sorte que eu.

Apenas em 2003 Lúcio começou a investir no sonho de criança de se formar em Direito. Ingressou na Puc, trabalhando à noite e pela manhã para estudar à tarde.

O segredo do sucesso

Morador do Bairro Camaquã, na Zona Sul da Capital, Lúcio orgulha-se em possuir um acervo de 2 mil livros no escritório.

Além de três empregos — professor em duas universidades e assessor legislativo na Câmara de Vereadores da Capital — e do doutorado, está focado em um objetivo maior: passar no concurso para juiz federal.

Seguir perseverante em meio a tantas dificuldades não foi simples. Para ele, sair da posição de vítima e estar desarmado frente às diferenças raciais e de classe foi fundamental. Ele faz questão de passar estes princípios para os três filhos, de dois, 14 e 18 anos.

— Não se pode ter uma estratégia de ódio. Quem estudar e trabalhar, vai conseguir.

O professor que não cansa de estudar

Na faculdade, as dificuldades financeiras o faziam atrasar as mensalidades. O crédito educativo chegou apenas na metade do curso. Lúcio formou-se em 2007 e nunca mais largou os estudos. Fez mestrado na Ufrgs com a linha de pesquisa direcionada aos direitos humanos.

Mas a experiência profissional mais gratificante ocorreu a partir de 2013, quando começou a lecionar nos cursos de Direito da Faculdade Dom Bosco, da Capital, e na Ulbra de Torres:

— É muita gente dizendo que tu não vais conseguir, que tu não tens condições. Prometi que, comigo, seria diferente.

E foi. A tese do doutorado na Ufrgs, concluída em três anos, trata sobre as cotas raciais.

*Diário Gaúcho

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