JUIZ CAGÃO:

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10 de set de 2015

ADVOGADO NÃO É GUIA ESPIRITUAL: AS REDES SOCIAIS E AS PRETENDIDAS CONSULTORIAS GRÁTIS

“Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu’auto-interesse’.”

(Adam Smith)

A célebre frase proferida por Adam Smith traduz, com precisão, o dever que cada um de nós tem de valorizar cada profissional no mercado de trabalho.

A internet é, sem dúvida, uma das invenções mais fantásticas do ser humano. No âmbito dos negócios, as redes sociais, em especial, são uma ferramenta interessantíssima, pois têm proporcionado a aproximação entre o público consumidor e os profissionais, oportunizando, assim, um plus na carteira de clientes de sociedades empresárias e profissionais liberais.

No âmbito das carreiras jurídicas, por certo, aos advogados tem sido possível empreender certo marketing sobre sua atuação. No Facebook, por exemplo, as comunidades virtuais possibilitam ao advogado apresentar trabalhos acadêmicos, travar debates, compartilhar peças processuais etc.

O marketing pessoal na internet, especialmente nas redes sociais, resulta em certa visibilidade do profissional perante o público. Naturalmente, alguns se destacam mais, pois tudo depende das estratégias que o profissional adota. O grau de networking, a qualidade dos grupos de que participa, entre outros fatores.

gandhi

Entretanto, ao mesmo tempo em que o incremento da internet tem o potencial de agregar resultados à carreira do advogado, também pode se tornar um verdadeiro contratempo, em razão do abuso de alguns usuários que pretendem obter consultoria jurídica gratuita.

Já vivenciei muito essa questão em minha experiência pessoal. Não raro, pessoas me procuram para “tirar dúvidas”. Todavia, desejam, em verdade, consultoria jurídica gratuita. Em algumas situações, quando o caso não é complexo, e em razão da perceptível vulnerabilidade informacional e financeira das pessoas, penso que até seja razoável ajudá-las, como de fato ajudo. Afinal de contas, a solidariedade e boa vontade devem sempre fazer parte do nosso portfólio de benevolências, e não faz mal a ninguém. De minha parte fico satisfeito por ajudar.

De outro lado, já me deparei com empresários que me procuraram para “pedir o favor” de analisar as questões jurídicas envolvendo a abertura ou reestruturação de um negócio, trabalho esse que demanda profunda pesquisa do arcabouço legislativo relacionado ao tema, e, por fim, a confecção de um verdadeiro parecer jurídico.

Pois bem, esses usuários da internet que saem em busca de “favores jurídicos” devem se conscientizar de que os advogados (ao menos a maioria que conheço) se formaram às custas de muito sacrifício pessoal e financeiro. E por isso não estão no mercado de trabalho para prestar favores.

Independentemente do fato de a faculdade ser pública ou privada, se formar em um curso demanda dedicação de considerável tempo, muitas vezes a distância de familiares e amigos (pois muitos municípios brasileiros não são servidos com uma faculdade de Direito), gastos com alimentação, transporte, livros e viagens para a participação de atividades extracurriculares (congressos, seminários, simpósios), dedicação a estágios que, na maioria das vezes, não são remunerados. Enfim, há um universo que envolve a formação profissional, mas que não é levado em conta pelas pessoas no momento de pedir uma consultoria gratuita.

Enfim, de modo geral, cursar uma faculdade é sacrificante sob diversos aspectos. É com vistas nisso que o advogado deve se valorizar ao máximo, cobrando – de forma justa, é claro – por seu trabalho após concluir sua formação. O Direito é uma ciência complexa, demandando considerável reflexão e cuidado por parte do seu estudioso na análise dos casos que são submetidos ao seu crivo. Não é a toa que os concursos para os altos cargos do Estado são complexos e exigem conhecimentos extraordinários dos candidatos. Lidar com o Direito significa lidar com os mais sagrados valores do ser humano (vida, liberdade, patrimônio, aspirações etc.).

Não me lembro bem onde li e quem é o autor da frase, mas certa vez li que “em matéria de direito, uma vírgula no lugar errado pode significar a diferença entre a liberdade e a condenação de uma pessoa”.

Numa palavra final: o fato de haver inúmeras (e procedentes) críticas sobre a quantidade de faculdades de Direito no Brasil e a baixa qualidade de muitos cursos não autoriza ninguém, absolutamente, a concluir que o advogado é um profissional formado “nas coxas”, e que por isso tem a obrigação de trabalhar de graça para “fazer seu nome”. Toda profissão conta com excelentes e péssimos profissionais. Há excelentes e péssimos médicos; há excelentes e péssimos geólogos; há excelentes e péssimos administradores de empresas… Então, nesse momento cabe a quem necessita dos serviços de um profissional buscar referências no mercado, de modo a fazer uma escolha racional.

Como descrito no título do artigo, advogado não é guia espiritual. Eventualmente, conforme julgar oportuno, pode sim ajudar, graciosamente, as pessoas menos favorecidas. Porém, a regra é cobrar pelos seus serviços como qualquer profissional. Exercer uma profissão por amor não é o mesmo que ser amador.

Se você, caro leitor, é desses que saem à caça de advogados para pedir uma “opinião” ou um “favor”, pense nisso.

Por Vitor Vilela Gguglinski – Advogado – Pós-graduado com especialização em Direito do Consumidor – Membro correspondente do Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor (BRASILCON) – Ex-assessor do juiz da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora-MG – Autor colaborador dos principais periódicos jurídicos especializados do país.

Fonte: Gazeta do Advogado

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