JUIZ CAGÃO:

Juiz tira um foto no banheiro pra mostrar que também é genteClique e leia

14 de set de 2016

Desculpe o transtorno, preciso falar da Advocacia

Conheci ela na TV. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém se encontrando em um estúdio de televisão, e se apaixonado na primeira troca de olhares. Mas a TV em questão era apenas eu, sentado, usando só uma cueca velha e furada, segurando um pote de sorvete de passas ao rum, assistindo o programa do Ratinho.

Lá eu tive o meu primeiro contato com ela, pois durante o programa tinha um tal teste de DNA, e sempre tinha um advogado para dar conselhos sobre o que poderia ser feito. Achei muito legal, principalmente porque o sobrinho da minha vizinha fazia faculdade de “adevogacia”, o cunhado da moça que limpava da casa do seu Ademar também fazia. Eu não fazia “adevogacia” mas tinha experiência em assistir filmes jurídicos na sessão da tarde. Nunca vou me esquecer do filme que o advogado não podia mentir, o filme era “o mentiroso” com o Jim Carey.

Enquanto os advogados dos filmes gritavam “eu protesto” ou então quando depois de exaustivas horas de discussões em um tribunal do júri tudo parecia perdido, eles tiravam um coelho da cartola e livravam o seu cliente da pena de morte, eu assistia tudo aquilo com meus olhos, sempre míopes e castanhos claros (há que diga que são cor de mel) sem fazer ideia do que os “engravatados” estavam fazendo. Mesmo assim, foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas nos conhecendo, ia na biblioteca da cidade, lia alguns livros, acreditem, feitos de papel, depois migrei para a internet e pesquisava algumas coisas sobre a faculdade de Direito, o problema é que eu perdia muito tempo falando bobagens, conversando no ICQ ao som de Blink 182 e Goo Goo Dolls. Minha paixão permanecia, mas continuei me distraindo, pois surgiu o MSN, depois veio o Orkut e depois o Facebook e o Whatsapp.

gregorio

Começamos o nosso caso pra valer quando eu tinha 22 anos, pois tinha passado no vestibular (na verdade paguei a inscrição e fiz uma prova fácil demais, pois era uma faculdade particular), já era um cara vivido, mas parecia que a vida começava ali. Vi todos os códigos. Alguns várias vezes, ahhh Código Tributário, não tenho saudades de você. Fiz todas as provas possíveis na faculdade: civil, penal, ambiental. Tirei nota baixa em várias, porque a conversa lá no bar do Toninho tava boa e eu não estudava.

Escolhi doutrinas sem saber se elas eram boas, comprei terno sem saber que não era item obrigatório na faculdade. Fiz muitos trabalhos manuscritos, resumos de doutrinas, relatórios de audiências, TCC.

Fiz uma dúzia de amigos novos, peguei bronca de alguns que puxavam o saco dos professores, na prova da OAB eu fiz 6,3 pontos, só eu – acabei de contar. Sofri com o começo da carreira, ria com os clientes que queriam fazer um ursocampeão. Não viajei o mundo porque o começo da vida jurídica é complicado, meu único amigo era o meu fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete são audiolivros de direito as outras três eram músicas para fixar o conteúdo da aula: “a imunidade tá na constituição e é na lei que mora a isenção”.

Aprendi o que era embargos auriculares, jus esperniandi, e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ter cursado a faculdade de Direito.

Um dia, mandaram um e-mail, ofereceram 35 reais para fazer uma audiência (e eu tinha que levar o preposto), quase terminamos. E não foi fácil. Chorei mais do que se tivesse reprovado por um décimo na prova da OAB, mais do que estudar todo o CPC e descobrir que ele vai mudar. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: posso fazer uma perguntinha? Parece que, pra sempre, isso vai me perseguir. Se ao menos eu tivesse escolhido ser urologista, eu penso. Ninguém ia me mostrar o “perú” no meio da rua.

Essa semana, pela primeira vez, fui levantar uma guia de honorários —não por acaso uma ação de divórcio. Achei que fosse chorar tudo de novo, pois o valor era ínfimo, uma verdadeira miséria. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter escolhido esse curso e essa profissão na vida. E de ter esse valor recebido documentado num pedaço de papel chamado alvará. Vou tirar uma cópia e pendurar na parede do escritório, tipo o tio patinhas, esse vai ser o primeiro de muitos. Não falta nada.

Mentira, falta sim, me falta ganhar dinheiro!

Livan, criador do NED.

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